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Agora Que Saí Do Armário Mesmo…..

Agora que saí do armário mesmo…..

Como citei no post anterior, saí do armário com relação ao uso de substâncias psicodélica (veja o post aqui) e que recentemente me tornei uma “psiconauta”. Mas é estranho que ao ler ou aprender qualquer coisa sobre o assunto, é como se eu sempre soubesse de tudo isso, como algo muito natural e antigo. A sensação que tenho é que não estou aprendendo algo novo, mas sim relembrando algo que eu já sabia e que sempre fez parte da minha vida. Talvez porque no caso do estudo dos psicodélicos, ao usá-los, passamos da teoria para a prática e o conhecimento acontece de dentro para fora e não só de fora para dentro. Ele sai da cabeça e acontece em todo o seu ser, mente, espírito, alma e corpo. 

Com isso, eu gostaria de falar para aqueles que nunca tiveram tais experiências, ou que estão começando nessa jornada, o que é uma experiência psicodélica e o que esperar de da mesma.

Para começar, é simplesmente IMPOSSÍVEL descrever uma experiência de estado não ordinário de consciência. Primeiro porque não existem duas experiências iguais, mesmo na mesma pessoa e com a mesma substância ou técnica (pode-se conseguir tais estados com técnicas respiratórias, jejuns, meditações e até espontaneamente em alguns casos). Segundo, porque não existem palavras para descrever algo que não usa palavras. A experiência vem de outro lugar. Os ensinamentos muitas vezes simplesmente acontecem, como downloads de aplicativos na nossa consciência. Mas mesmo assim, venho aqui numa tentativa de traçar um “mapa de bordo”, um guia de como se preparar e o que esperar de uma experiência psicodélica.

Antes de eu continuar eu gostaria de alertar que pessoas com histórico de doenças como esquizofrenia, bi-polaridade ou surtos psicóticos não devem fazer uso dos mesmos, a não ser que estejam sendo acompanhados por seus médicos.

No mundo dos psiconautas e das terapias assistidas por psicodélicos, se usa muito a expressão Set and Setting. No meu ver, este princípio é a premissa básica de toda experiência bem sucedida.  Porém ontem, numa aula de redução de anos, ouvi uma terceira variável: a substância em si. (Eu vejo ainda uma quarta, que mencionarei daqui a pouco)

Vamos começar então por set and setting. Set é seu estado mental. Quem sou eu neste momento? Como estou me sentindo? Que intenção eu tenho para com essa experiência? Setting é o seu arredor. Onde estou? Com quem estou? Me sinto fisicamente seguro? Posso contar com as pessoas à minha volta para me ajudarem se for preciso? Vou colocar música ou não? Que tipo de música? E a Substância é: o que vou usar? Conheço ou já li sobre seus efeitos? Como atua no meu corpo? O que devo esperar dela? Qual a proveniência? É segura? Qual a dosagem segura que devo tomar?

Com exceção da Ayahuasca e dos Cogumelos Mágicos (e outras plantas menos conhecidas), a maioria das substâncias são ilegais, e na ilegalidade é impossível saber sua proveniência e se são puras ou misturadas com diversos contaminantes. No fim, a Guerra às Drogas só aumenta o problema, mas isto é assunto para outro post. 

Tudo organizado: seu estado mental e físico, substância e  dosagem. Se sua experiência for em um centro de ritual de Ayahuasca, seja Santo Daime, UDV, Neo Xamânico, estas duas últimas etapas geralmente são por conta dos dirigentes do local. Apesar que se você não se sentir seguro no local ou desconfortável por algum motivo, não fique. Espere e encontre um local que você se sinta à vontade. Melhor ir embora antes, do que se arrepender depois.

Dependendo da substância que for ser usada, a experiência mudará muito. Quando já estamos familiarizados com o seu uso, sabemos quando elas começam a fazer efeito, mas para os novatos o principal é relaxar e confiar. 

Nos meus próximos posts vou relatar experiências e expectativas de cada substância que eu já experimentei, mas aqui é mais um apanhado geral, onde relato o que EU acredito ser o mais importante para todas elas.

Como havia citado anteriormente, além do set, setting e substância, existe uma quarta variável que eu acredito ser de suma importância se quisermos ter o melhor proveito de qualquer experiência, que é a ENTREGA. O que quero dizer com isso? Vivemos em uma sociedade onde tentamos controlar tudo. Nossas ações, objetivos, destinos, resultados e muitas vezes o que os outros devem ou não fazer de suas vidas. Porém, no meu entender e na minha experiência, temos muito pouco controle sobre as coisas. Podemos controlar o que vamos fazer com as nossas emoções e situações, mas não podemos evitar que essas aconteçam. Se alguém te cruza no transito e vem uma raiva incontrolável, não podemos controlá-la, no máximo respirar fundo e escolher o que faremos com ela. O mesmo acontece numa experiência psicodélica. As melhores e mais profundas experiências vêm da entrega absoluta de que vamos viver exatamente aquilo que precisamos e estamos prontos para dar conta. Tentar controlar o tempo, o que nos aparece, o que queremos que aconteça, é receita para uma bad trip, ou uma experiência ruim.

Façamos uma distinção entre bad trip e uma experiência desafiadora. Nem tudo o que vamos vivenciar são flores, arco-íris ou só amor. Muitas vezes vamos ter que rever momentos em nossas histórias que foram extremamente doloridos e que precisam ser curados. Revivemos traumas que nem nos lembrávamos mais, mas que precisam sair da escuridão para serem libertados e termos mais paz no nosso dia-dia. Essas são as ditas experiências desafiadoras, que no mundo Ayahuasqueiro chamamos de peia, ou brincamos que “até quando a experiência foi ruim mesmo assim ela foi boa”.

Agora, para mim, uma bad trip ou uma experiência ruim, ou até traumatizante pode acontecer por alguns motivos. Os dois principais são: 1. tentar controlar a experiência; 2. estar em um lugar não apropriado e ter que lidar com acontecimentos externos não esperados (por isso o setting é de extrema importância).

Eu sigo um lema que me ajuda muito, principalmente quando estou vivenciando algo difícil. Me concentro na respiração e repito internamente: Entrego, Confio, Aceito e Agradeço. Pois eu sei que assim como entrei ali, sairei. E sairei uma pessoa muito melhor que antes, por isso confio. Timothy Leary, um dos porta-vozes dos psicodélicos nos anos 60/70 dizia: “Confie no seu sistema nervoso. Assim como a substância entra, ela sai.”

No início, sentimos que realmente estamos perdendo o controle, mas nunca a consciência. Tenho uma amiga que tinha muito medo de consagrar a Ayahusca. Quando finalmente o fez ela disse: “o problema não é que perdemos a consciência, mas que ficamos MUITO conscientes de tudo.” E para muitos este ganho de consciência nem sempre é conveniente ou fácil naquele momento. 

Com isso em mente, set, setting, substância e entrega, a probabilidade de se ter uma experiência transformadora e maravilhosa (mesmo que difícil) é muito grande. Até mesmo uma bad trip pode no final trazer transformações profundas, se elaboradas depois. E por isso que hoje uma dos trabalhos que faço é terapia de integração de experiência psicodélica, pois independentemente dela ter sido “boa” ou “ruim”, se não integrada, perdemos uma excelente oportunidade de transformação e crescimento pessoal. 

Adendo: existem várias outras maneiras de se obter tais resultados, como Respiração Holotrópica, Meditação, Jejum, entre outras. Porém, venho falar das minhas experiências pessoais, sem querer incentivar ou fazer propaganda do uso de qualquer substância. 

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